Birra, mordida e outros exercícios de combatividade

Birra, mordida e outros exercícios de combatividade

                                                                            

                                                                               BIRRA, MORDIDA E OUTROS EXERCÍCIOS DE COMBATIVIDADE

                                                                                                                                                                                                                    Nereide Tolentino

 

As formas de relacionamento nos primeiros anos de vida podem marcar decisivamente nossas futuras relações com o mundo. A capacidade do adulto de lutar por seus objetivos, por exemplo, está muito ligada à maneira como a criança, a partir de 1 ano, 1 ano e meio, luta pelas suas coisas. Esse despertar da combatividade na criança pode criar situações incômodas. Porque, nesta fase, lutar é morder. E morder dói, deixa marcas. E os pais ficam muito encucados com isso. Se o filho morde: meu Deus será que ele não vai ser violento? Se for mordido: então ele vai passar a vida deixando que os outros batam nele? As primeiras manifestações da agressividade por parte da criança geram no adulto uma ansiedade muito grande. É que o adulto logo relaciona agressividade com violência. Mal a criança de 1 ano e meio morde o filho do vizinho, a mãe conclui: "ele vai achar que brigar é a solução." Quando, na verdade, isso nem passa pela cabeça da criança. Na grande maioria das vezes, ela apenas está querendo um determinado objeto e usando a sua combatividade para consegui-lo. É bom prestar atenção nessa palavra - combatividade. Porque no decorrer da vida, você vai encontrar muitos estudos sobre a agressividade como traço negativo na personalidade infantil. Agora, sobre a combatividade, que é canalização positiva da agressividade, você não vai achar praticamente nada em livro nenhum. E o resultado prático disso é que, com medo de que a agressividade vire violência, não se trabalha a combatividade da criança. E depois você vê aí muita gente, especialmente dessa nova geração, com problemas de timidez, de iniciativa, de relacionamento. Jovens inseguros que, diante dos obstáculos, caem fora, entregam barato, ou então partem para o autoritarismo e querem resolver tudo rápido e na marra. O fato é que, na nossa cultura, a agressividade é uma característica especialmente temida. Já em outras sociedades é um aspecto da personalidade muito trabalhado como condição para a criança ser forte mais tarde. Entre nós, é grande o pavor da violência, o que talvez possa até ser explicado por toda uma conjuntura social e política que o país viveu. Se os pais, no entanto, mudarem a sua atitude ansiosa em relação à agressividade dos filhos, vão ver que a mordida, a briga pelas coisas, o xingar o outro podem ser percebidos até como indicadores do desenvolvimento. É sobre isso que eu gostaria de falar desta vez. E começar lembrando que uma das primeiras formas de relação de uma criança com as outras é a disputa por um objeto qualquer. Um brinquedinho, um chocalho, uma coisa à toa jogada no chão. E essa disputa é sempre em função do objeto que ela quer ter, e não propriamente contra a outra criança. E como a criança manifesta as suas vontades? De um modo muito simples: indo na direção daquilo que ela quer. Ela ainda não sabe falar "brinquedo", mas é capaz de identificar um carrinho e caminhar na direção dele. E aí pode acontecer que não é só ela que quer aquele carrinho. O companheiro do lado também quer. Então ela vai usar a força de que dispõe para conseguir o brinquedo. A outra é um mero obstáculo entre ela e aquele brinquedo. Só que esta outra também é uma força, quer o brinquedo e reage. É um momento muito importante para ambas. É a primeira manifestação de combatividade, o uso de uma força interna para conseguir algo por conta-própria, a canalização da agressividade em função de um objetivo. Uma vivência basicamente positiva, embora o método, não seja dos mais elegantes: a mordida.

Por que a criança morde?

A resposta é simples: porque sua força ainda é oral. Se ainda é oral a relação dela com o mundo - com a mamadeira, o seio, a chupeta - oral vai ser a manifestação de sua força. Nesse contexto, a mordida é primordialmente uma força de combatividade e não de agressão ao outro. A prova é que a criança morde em qualquer lugar. No braço, no outro, nas costas. Até no calcanhar: simplesmente porque a outra estava engatinhando na hora da disputa pelo objeto. Ela morde o que está na frente e, na verdade, a mordida nem tem uma relação direta com o outro. Tanto que, mal o "adversário", começa a chorar, ela larga o brinquedo. Está é uma atitude muito clara de não-agressividade em relação ao outro. Ela nem entende que doeu, nem por que o outro chora e até, assustada, é capaz de largar o objeto disputado. A criança maior, quando morde, é para agredir e, portanto, sabe onde atingir o adversário. Combater para conseguir o que quer: para sua formação, é fundamental para a criança saber que possui esta força - e esse direito. No entanto, veja a reação dos pais. O adulto já chega dizendo: "viu, seu feio, você machucou o Ricardinho! “Na verdade, intencionalmente a criança não fez nada disso”. Mas, diante da reação do adulto, vai-se formando nela um sentimento de culpa em relação à vontade de querer as coisas. Eis o que se passa em sua cabeça: "eu sou feio porque quis isso, então eu não devo lutar pelas coisas, tenho mais é que esperar que alguém me dê". E teremos aí mais uma criança desestimulada a batalhar pelos seus objetivos. Agora, vamos supor que a criança esteja disputando alguma coisa (um chaveiro, o garfo, a caneta) com um adulto. Ela logo percebe que o adulto é forte, é grande, e que sua força interna no momento - a boca - não é nada contra aquele gigante. Então, o que ela faz? Faz birra. Grita, se deita no chão, bate o pé. É a única forma que ela encontra de manifestar sua força interna, sua capacidade de lutar por um objetivo - a chave do carro que o pai não quer dar. A birra é a mordida psicológica quando o inimigo é fisicamente mais forte. Em torno de um ano e meio de idade, a criança costuma se atirar no chão quando quer as coisas. Nessa faixa, é a única maneira de demonstrar sua força em relação ao que quer. Joga sua força inteira contra aquele obstáculo que para ela é a força maior - o adulto. E a sua força, naquela idade. Você já viu uma criança de 5 anos se atirando na rua para conseguir as coisas? Com um ano e meio, ela não só faz isso como não deve ser inibida no seu jeito de se manifestar. A criança não é capaz de entender o seu jeito irritante de se expressar. Ela sente que você está anulando é a força que ela está empregando para lutar pelo que quer. Os pais em geral não estão preparados para viver estes momentos. Nem para a birra, nem para a mordida. Na birra o componente social influi muito. Afinal, a criança dá escândalo; se atira no chão na frente das visitas, chuta a porta, derruba coisas no supermercado. Atitudes que para certos pais são apenas indicadores de má educação, de menino malcriado. Com a mordida é a mesma coisa. Que brigue, discuta, dê ou leve um tapa, tudo bem. Mas chegar em casa mordido já complica. A marca está ali, dolorosa, feia, começando a inchar. A reação dos pais: "mas como, nosso filho, tão pequeno, já é um saco de pancadas?" É fundamental, portanto, que os pais entendam a linguagem da criança em cada fase do seu desenvolvimento. Só assim eles vão ajudar a criança a se expressar através de maneiras mais maduras e civilizadas.

Muitos pais costumam se defender com a seguinte acusação: "ah, mas aqui em casa ele não morde ninguém, só na escola. " Ora, ele não morde porque não tem condições mesmo. Em casa, uma criança de um ano e meio vai disputar o brinquedo com quem? Com o pai é que não. Criança percebe logo a correlação de forças; com adulto ela só usa birra, e morde outras crianças. Você diz "não pode", ela resmunga e se conforma. Na escola é que a disputa é de igual para igual. Ali ela morde e é mordida. Ali ela tem um campo para exercer a sua combatividade e, com isso, amadurece mais depressa. Mais depressa que um filho único, por exemplo. Numa família antiga, com seis, oito filhos, a criança tinha um universo naturalmente mais rico. Tinha com quem disputar o ovo que estava na mesa. Numa família moderna típica, ele às vezes nem tem com quem disputar nada. Ora, especialmente quando vivida numa escola, a liberdade de disputar as coisas (mesmo com risco de mordidas) é fundamental para a criança aprender a lutar pelos seus pequenos objetivos. Aliás, a criança disputa desde que nasce. Chora pela comida, chora por um agasalho, chora para que a mãe a venha limpar. Quando sai do berço e quer um objeto, engatinha na direção dele. E, quando consegue, começa a creditar em si mesma. E começa a formar uma determinada postura psicológica frente aos obstáculos. O que é tremendamente importante. Porque os obstáculos variam. Hoje é a altura da mesa, a mão de outra criança que quer o mesmo brinquedo. Amanhã serão outros. Mas o importante, repito, é a postura interna que neste momento está se formando: diante do obstáculo, a criança enfrenta com os meios de que dispõe, ou, reprimida, volta para trás. O importante é que o adulto permita o exercício da combatividade. Com os pais parece mais complicado. Chega ao parquinho, mal o filho vai disputar um brinquedo com outra criança, a mãe corre ansiosamente em cima: empresta o carrinho para ele que ele logo devolve. Pronto, o problema foi resolvido, só que do ponto de vista do adulto, do ponto de vista social. Para a criança que ainda nem desenvolveu direito o sentido do tempo, não tem isso de “empresta um pouquinho que depois ele devolve, ela quer o brinquedo naquele momento”. Apronta e ansiosa intervenção do adulto condiciona efetivamente a criança a depender dos outros para conseguir o que quer.

Lá pelos 3 anos, esta criança chega choramingando para a mãe e se queixa de que quer um brinquedo e o amigo não quer dar. Então a mãe reclama que o filho vive na barra da saia dela, que não tem iniciativa, que os outros batem nele e ele não reage. Ora, quem ensinou isso? Quem condicionou que os objetivos daquela criança tinham que depender sempre do adulto? Quem não permitiu que ele pudesse disputar coisas, medir suas forças diante de um rival? Disputar era um direito dele. Hoje perder, amanhã ganhar, avaliar sua força - tudo isso é um grande aprendizado. A disputa é uma fase natural do desenvolvimento e, quanto menos o adulto gera ansiedade em cima dela, mais rapidamente ela passa. Xingar também pode ser outro indicador de desenvolvimento. Chega uma fase em que a criança começa a responder a avó, xingar a vizinha. Os pais que sonham com um filho obediente e bem dentro dos padrões sociais, se preocupam: "então ele vai crescer assim? xingando todo mundo?" Claro que não vai. Não é só porque ele xinga aos 3 anos que ele vai xingar toda a vida. Mas nessa fase é meio inevitável: ele descobriu as forças da palavra. Descobriu que verbalmente pode expressar uma agressão de forma até mais eficiente que uma mordida. E vai repetindo palavras cujo significado nem entende. Ouviu por aí e sabe que contêm uma agressão. E qual seria, para o adulto, a atitude mais indicada diante da mordida, da birra, da briga?

Primeiro, é bom lembrar que a atitude do adulto é sempre em função da sua própria ansiedade, da expectativa social e não diante do entendimento do que realmente está acontecendo com a criança. Se o filho mordeu, a postura é uma. Se for mordido, é outra. Pessoalmente, como educadora, minha reação nunca é do tipo: você não deve morder! Nem por isso vou ensinar que morder é ótimo. A melhor atitude é sempre aquela que parte da compreensão da próxima fase do desenvolvimento da criança em matéria de expressão. Porque aí é possível ajudá-la a amadurecer para a etapa seguinte, mesmo sabendo que maturidade não é coisa que acontece de um dia para o outro. Duas crianças, por exemplo, estão brigando por uma boneca. Uma puxa, outra puxa, uma morde e a outra abre um berreiro.

Normalmente minha postura é a seguinte: "olha, você não precisa morder, peça a boneca que ela lhe empresta." Amanhã ela vai chegar e pedir emprestado como eu sugeri? Claro que não. Se ela soubesse pedir, provavelmente teria pedido, não teria mordido. Mas, agindo desta maneira, eu estou canalizando: primeiro, a importância de ela lutar pelo brinquedo e, segundo, a forma adequada de relação com o outro quando ambos querem a mesma coisa: o uso da palavra. Dependendo da idade da criança, pode-se até sugerir: "você brinca um pouquinho e depois empresta pra ela.” E eu sei: amanhã aquela criança vai morder de novo para conseguir aquele brinquedo. Mesmo assim, é importante fazer com que ela desperte para a fase seguinte (verbal) sem ser inibida em seu estágio atual. No entanto, quando os pais falam e as crianças continuam na mesma, a conclusão é a seguinte: "besteira falar, não adianta".

Adianta muito. Só que não se pode alimentar expectativas em relação a uma atitude para a qual a criança não tem maturidade ainda. A expectativa do adulto é que está errada, não a criança. Ela ainda não tem os conceitos de "peça, divida". Ela quer, vai em cima e morde quem se interpõe. Isso é básico para o adulto: ter consciência de onde a criança deve chegar e não querer que ela chegue lá antes da hora. Em cada fase, é saudável perceber como a criança está se valendo da força que tem no momento. A mesma coisa com o choro. A criança quer uma coisa e já vai abrindo um berreiro. Você diz: "não precisa chorar, eu dou." Amanhã ela vai chorar de novo? Claro que vai.

Porque é teimosa? Não, apenas porque ainda não sabe dizer: "me dá água." Só por isso. Mas, ao ensiná-la a pedir, você está canalizando sua energia para a próxima situação. Um dia, em vez de chorar ela diz "me dá água" e você vai ver que foi muito importante tê-la ajudado a descobrir a força da palavra. O problema é quando, já com 5 anos, a criança chora para pedir as coisas. Aliás, quando você encontra um adolescente ou mesmo um adulto chantageando, chorando para conseguir o que quer, é sinal de que sua combatividade não amadureceu para as múltiplas manifestações possíveis: eles ainda estão na fase do choro da primeira infância. Tiveram provavelmente pais superprotetores ou francamente repressivos. Pais que se esforçam mais por dizer que era feio chorar pelas coisas e não se preocupam em canalizar aquele choro para outras formas de combatividade. O importante também é que a atitude do adulto seja sempre coerente. Se a criança chora por uma faca que não pode ter, não pode mesmo. E dar o motivo: "não dou a faca porque ela pode cortar o seu dedo, não precisa chorar desse jeito, por que você não brinca com uma coisa que não tem perigo?" E manter sempre essa mesma postura. A criança vai entender? Não. Mas aos poucos percebe que a negativa tem um motivo. "vai machucar" essa ainda não é uma razão muito clara para a criança.

Mas de alguma forma, ela vai entender que há uma razão. Que você não está negando por negar. Agora, se amanhã, para não ouvir mais um choro, você dá a faca, confunde tudo. Uma razão existe ou não existe. Vale ou não vale. Se puder dar, dê. Não pode, não dê. Nem hoje, nem amanhã, nem por bem, nem por birra. A primeira infância é fundamental para a formação da personalidade. Muito pai diz que a criança é fácil levar. É fácil porque você é a força. Mas a força da criança existe. Se não for bem compreendida, respeitada, canalizada, vai estourar de um jeito torto na adolescência ou mesmo na vida adulta.

É preciso ter a oportunidade de exercitar essa maturação já nos primeiros anos de vida. Por isso, dê o tempo que a criança precisa e ela naturalmente amadurece para outras formas de expressão. De nada adianta exigir comportamentos socialmente corretos que não estejam representando amadurecimento interno. Fica muito bonito para os amigos e os vizinhos, mas não para o crescimento do seu filho. Que é o que importa.

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